OPINIÃO

Os vilões do conflito Rússia-Ucrânia

Por Anivaldo Miranda 02/03/2022 - 13:49
Atualização: 02/03/2022 - 13:55
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Reprodução
Rússia ataca Ucrânia
Rússia ataca Ucrânia

Nessa guerra todos são vilões à exceção das populações civis principalmente da Ucrânia. A Europa Ocidental teve uma grande oportunidade de criar um novo tipo de relação com a nova Rússia nacionalista e capitalista quando esta, enfraquecida, desmontou a União Soviética e desmobilizou o Pacto de Varsóvia. Não fez isso porque os Estados Unidos não compraram a ideia.

E não compraram a ideia porque a geopolítica de dominação global do establishment americano pressupõe uma Europa eternamente refém do medo atávico à Velha Rússia. Fruto dessa doutrina que moveu a Guerra Fria que nunca acabou, ao invés de desmobilizar a OTAN o que se fez foi expandi-la para o Leste em novo cerco que suscita antigas disputas territoriais e fronteiriças. Isso tudo teria que dar em tragédia como de fato o deu visto que nunca foi recomendável encurralar uma superpotência militar e nuclear no velho estilo de brincar com fogo.

Mas foi isso que Estados Unidos, Inglaterra França e agora a Alemanha estão fazendo ao transformar Zelenski num marionete e o povo da Ucrânia em bucha de canhão de mais uma guerra estúpida onde todos estão jogando mais gasolina na fogueira , abusando de uma retórica de confronto onde não se vê até agora esforços concretos para um cessar fogo e retomada plena das negociações diplomáticas sérias, o que pressupõe, é claro, a busca de soluções razoáveis para os dois lados do tipo Ucrânia fora da OTAN em troca de garantias russas de respeito à soberania do território ucraniano livre de bases e equipamentos militares que ameacem a Rússia.

Esse porém, seria apenas o primeiro passo para construir uma nova ordem internacional que sepulte definitivamente os escombros deixados pela Segunda Guerra Mundial e pela bipolaridade da Guerra Fria, consentânea com a geopolítica multipolar e globalizada que temos hoje. Por isso, ao invés de repetir o discurso crescentemente bélico que até a Alemanha , com toda a sua simbologia histórica explosiva está adotando para encher de armas inclusive alemãs a Ucrânia militarmente inferiorizada em nada promove a paz que as populações do mundo querem. 

O momento não é o de simplesmente comprar de forma mecânica os pacotaços de informação midiática manipulada pelos dois lados e sim de exigir o cessar fogo nesta e em outras guerras em curso. Putin não é nenhum lunático. É tão somente um nacionalista russo, conservador, adepto da igreja ortodoxa atrasada e paladino de uma Rússia capitalista dominada por grupos oligopolistas agressivos. E esse é um dado concreto bem como expressão de uma realidade factual. Não adianta ignorá-lo pois é com ele que a Europa tem que se entender.

A paz é uma construção complexa. Já vai um tempão que foi ficando claro que a Velha Ordem baseada sobretudo na Pax Americana está obsoleta e perigosa. Mas ninguém na arena internacional tem se movido sinceramente para substitui-lá por um novo estado de coisas. E, se isso continuar inalterado, estaremos caminhando a passos largos para novas guerras e, quem sabe, para o holocausto nuclear.

* Anivaldo Miranda é presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, alagoano, jornalista e ambientalista.


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